sábado, 1 de abril de 2017

Vez ou outra

Já faz um tempinho que que você não vem, mas volta e meia ainda acho um fio de cabelo seu por aqui. Cabelo preto, longo, fino, "com tratamento de côco pra dar aquela leveza". Vez ou outra me pego lembrando de você indo ao banheiro e voltando de batom. De quando a gente se beija e o batom pinta a gente de vermelho e a gente limpa um ao outro rindo. De você pedindo a terceira tequila já pensando na quarta e chamando meu whisky de dose de perfume. De quando você cochila no meio do filme e disfarça com um sorriso bobo tentando ver se eu percebi. Da gente roubando travesseiros e coberta do outro sorrateiramente no meio da noite. De você imitando meu mau humor de manhã e logo depois vindo me abraçar bem coladinho. Do nosso sexo de bom dia e de você dormindo no meu peito. 

Vez ou outra me pego lembrando do teu perfume de algas marinhas e de você comentando que determinada empresa não faz testes em animais, sempre preocupada com o bem estar dos outros. Vez ou outra me pego lembrando de milhares de coisas. Acho que vez ou outra e o tempo inteiro meio que já se confundiram. Acho a saudade uma delícia. Mas às vezes ela machuca tão forte que dá até vontade de desaparecer. Você fez questão de não esquecer sequer o guarda chuva, mas de um jeito ou de outro, no meu quarto já tem tanto de você... 

Vez ou outra eu tive medo, muito medo. E vez ou outra, duvidei. De você, de mim mesmo, desse negócio doido e estranho. Dessas vezes ou outras que se confundem com o tempo inteiro em uma cabecinha estranha feito a minha (e tou falando da cabeça que pensa, haha) muita coisa se tornou constante e forte, muita coisa tomou forma e ganhou um rosto, e muitas dessas coisas tem seu nome escrito. E o vez ou outra virou uma grande constante e um grande anseio, uma certeza gigantesca. Queria que você soubesse. 

Agora, enquanto chove forte na cidade, me pergunto se chove por aí também. E me pergunto se já jantou, se pintou a unha (porque fim de semana sempre é dia de renovar pra mesma cor). Lembro de você pegando um esmalte vermelho sangue na farmácia e me olhando com um sorriso tímido quando percebi. Vez ou outra me lembro de coisa ou outra. Vez ou outra lembro de um bilhão de coisas. Vez ou outra sinto sua falta. E vez ou outra já se confundiu com o tempo inteiro.