segunda-feira, 10 de julho de 2017

O sabiá que sabia demais

Enquanto amanhece, volto andando devagar
Acendo um cigarro e continuo a divagar
Já encontrei meu porto, é só questão de vagar
Sou réu confesso, ninguém quer me advogar
Calado, sóbrio e cinza, subo a rua Humaitá
Como um sabiá que não sabe assobiar

Religiosamente, como se fosse sacro ofício
Cada linha feita de sangue e sacrifício
Entre uma estação e outra, alguém senta do meu lado
Mas no fim das contas, viajo sempre 

Embarques, desembarques, cartões postais
Eu sou do mundo e o mundo é meu
Eu vejo a estrada ficar pra trás
Ou quem fica pra trás sou eu?

A gente se esbarra em qualquer estação
Ou não

terça-feira, 13 de junho de 2017

quinta-feira, 8 de junho de 2017

De um caderno velho: Férias

Eu ando tão cansado
Com o peito tão pesado
Meio empenado
Tudo fora do lugar
Nesses dias tão lotados
Mas tão vagos e parados
Meio amarelado
Já começo a murchar

Tanta correria 
Para lugar nenhum
Almoçar correndo,
Ou ficar em jejum

Tanto desperdício

Eu alugo a minha juventude pro patrão
Eu trabalho para construir um sonho
Que não é meu
Já meio cansado de correr na contra mão
Eu me perco de mim mesmo e nem me oponho
Esse aí sou eu

Tanto desperdício

Carro buzinando,
Trânsito infernal
Fumaça sufocando,
Notícia de jornal

Todo mundo com pressa
Não consigo acompanhar
Eu preciso de férias,
Se não vou sufocar
Eu preciso de uns dias
De tanta correria
Eu preciso de férias



Férias de mim mesmo

domingo, 4 de junho de 2017

Epifania de Alice

Por algum tempo conversei com ela através de uma redoma. Por algum tempo, falei sem ser ouvido mas sei que ela me sentia e eu a sentia também. Por vezes, imaginei como seria a primeira vez que nos encontrássemos. E depois de meses de espera, eis que é chegada a hora, assim quase de surpresa. Na primeira vez ela nem me viu. Lembro de ter sentido tanta coisa ao mesmo tempo e não ter entendido metade. A emoção de segurá-la nos braços, uma mistura de felicidade instantânea e medo, o cheirinho, o toque. Contrastes tão gritantes onde a vida é tão presente e recebida com felicidade e descontentamento ao mesmo tempo. 

A meia luz do fim de tarde invadindo o lugar quase que tímida, o olhar mais despreocupado que já vi na vida percorrendo o quarto...e quase que imediatamente, ela dormindo no meu colo. A mãozinha tão pequena segurando meu dedo, o cheirinho de recém nascido, cheiro de pureza. Ela respirando com tanta calma que quase nem se percebe, tão quentinha, vez ou outra mexendo os dedinhos enquanto dormia. Como pode tanta paz caber em um serzinho de 46 centímetros? Energia forte que emana, encostei na poltrona e cochilei com ela no colo. 

Voltei pra casa com a cabeça cheia. Me fez pensar nos filhos sem pais e nas mães guerreiras. Crescer sem alguém tão importante na formação de uma criança, nos possíveis traumas e ressentimentos de alguém que mal aparece ou possivelmente nunca se verá. Me fez pensar na batalha diária de uma mãe que tem que ter força em dobro sendo pai e mãe educando e criando um serzinho. Mundo injusto onde a gente é largado sem pedir e tem que se virar pra se tornar forte e sobreviver. 

Sobretudo, voltei pensando na vida e em sua efemeridade, no caminho que a gente começa a trilhar antes mesmo de aprender a andar e percorre por ele muitas vezes sem nem se dar conta. E mesmo quando a gente se torna um ser humano com senso crítico e personalidade desenvolvidos a gente continua trilhando esse caminho, mantendo as mesmas manias, cometendo os mesmos erros, procrastinando e fugindo dos nossos próprios medos.

E quando já andamos com as próprias pernas, continuamos o percursso. As mães nos criam para sermos felizes e nem se dão conta que no meio desse processo acabam nos traumatizando de inúmeras formas. E a gente mesmo acaba se tornando alguém com medo de se machucar. E conforme o tempo avança a gente vai deixando que as sombras do passado interfiram no nosso presente, no nosso futuro. Já parou pra pensar quantas oportunidades de ser feliz de verdade você perdeu por medo? Eu perdi algumas. 

Voltei andando e olhando pro céu sem estrela. Pensando na bebê, que um dia vai ser vovó, pensando que daqui a pouco tempo ela já vai estar falando e que quando eu for um tio velho bem chato vou viver dizendo que a peguei no colo e ela está enorme. 

Voltei pensando nos erros, nos acertos, voltei pensando que a vida é maravilhosa e ao mesmo tempo é injusta, difícil...só se vive uma vez e pra tanta coisa não existe segunda chance. Mas como a gente vai saber? Como ela vai saber? Voltei mais que tudo desejando muita saúde e muito carinho. Que essa jornada que acabou de começar seja cheia de conhecimento e você continue emanando aquela energia tão gostosa que coloriu meu dia. Aqui não é o país das maravilhas, mas a vida é maravilhosa. Bem vinda ao mundo, Alice! 


sábado, 13 de maio de 2017

Karma Sutra

O eterno retorno me traz 
O eterno retorno me toma
O eterno retorno retorna
Ouroboros

sábado, 1 de abril de 2017

Vez ou outra

Já faz um tempinho que que você não vem, mas volta e meia ainda acho um fio de cabelo seu por aqui. Cabelo preto, longo, fino, "com tratamento de côco pra dar aquela leveza". Vez ou outra me pego lembrando de você indo ao banheiro e voltando de batom. De quando a gente se beija e o batom pinta a gente de vermelho e a gente limpa um ao outro rindo. De você pedindo a terceira tequila já pensando na quarta e chamando meu whisky de dose de perfume. De quando você cochila no meio do filme e disfarça com um sorriso bobo tentando ver se eu percebi. Da gente roubando travesseiros e coberta do outro sorrateiramente no meio da noite. De você imitando meu mau humor de manhã e logo depois vindo me abraçar bem coladinho. Do nosso sexo de bom dia e de você dormindo no meu peito. 

Vez ou outra me pego lembrando do teu perfume de algas marinhas e de você comentando que determinada empresa não faz testes em animais, sempre preocupada com o bem estar dos outros. Vez ou outra me pego lembrando de milhares de coisas. Acho que vez ou outra e o tempo inteiro meio que já se confundiram. Acho a saudade uma delícia. Mas às vezes ela machuca tão forte que dá até vontade de desaparecer. Você fez questão de não esquecer sequer o guarda chuva, mas de um jeito ou de outro, no meu quarto já tem tanto de você... 

Vez ou outra eu tive medo, muito medo. E vez ou outra, duvidei. De você, de mim mesmo, desse negócio doido e estranho. Dessas vezes ou outras que se confundem com o tempo inteiro em uma cabecinha estranha feito a minha (e tou falando da cabeça que pensa, haha) muita coisa se tornou constante e forte, muita coisa tomou forma e ganhou um rosto, e muitas dessas coisas tem seu nome escrito. E o vez ou outra virou uma grande constante e um grande anseio, uma certeza gigantesca. Queria que você soubesse. 

Agora, enquanto chove forte na cidade, me pergunto se chove por aí também. E me pergunto se já jantou, se pintou a unha (porque fim de semana sempre é dia de renovar pra mesma cor). Lembro de você pegando um esmalte vermelho sangue na farmácia e me olhando com um sorriso tímido quando percebi. Vez ou outra me lembro de coisa ou outra. Vez ou outra lembro de um bilhão de coisas. Vez ou outra sinto sua falta. E vez ou outra já se confundiu com o tempo inteiro. 

quarta-feira, 15 de março de 2017

Amparo

Já faz um tempo eu não conto com a sorte
Saber apanhar é a essência de ser forte 
Na colcha de retalhos eu sou só mais um recorte
Estou esbanjando vida, sorrindo pra morte 

Já faz um tempo eu não conto com ninguém
Saber ser só é a a essência de estar bem
Entre um velório e outro eu permaneço zen
Aquilo que vai deixa espaço pro que vem

Como se a vida fosse um resumo do que acontece
Entre o primeiro e o último batimento cardíaco
Tempo onde as coisas começam e terminam
E a gente só se dá conta quando é tarde demais

Já tive histórias com desfechos desleais,
Noites inesquecíveis que eu já nem lembro mais
Entre dias de Sol, tempestades e vendavais,
Fins são novos começos ou a vida é feita de finais?

A arte imita a vida ou será que a vida imita a arte?
Filho do deus da guerra, Áries, eu vim de Marte 
A gente se perde para se encontrar,
Ou acha que se encontra reafirmar que está perdido?

Assim vivemos

Até que a morte nos separe
Até que a morte nos repare
Até que a morte não separe
Até que a morte nos ampare 

domingo, 12 de março de 2017

Inferno Astral Pt. II - Redenção


Acho que não sei mais falar de amor. Vai ver meu conceito de amor tenha se transformado em algo muito maior. Talvez tenha desaparecido. Também não quero mais falar de ódio. Porque a razão e a organização podem derrubar qualquer rei. Hoje, prefiro falar das coisas e do mundo. Sentado em um canto, assumi meu posto de observador, como um móvel no canto da sala que acaba se tornando parte do ambiente, silencioso, seguindo pela sombra. 

Vejo a banda passar e tambem sou passageiro. Nômade sem lar, minha mochila é minha casa. Apesar de tantas diferenças, no fim das contas somos todos semelhantes. Pequenininhos perante o tempo, o universo; "nada se perde, tudo se aproveita". Arquiteto de castelos de areia, aprendi a transformar trincheiras em jardins, a encontrar meu lugar em qualquer lugar. Descobri que dormir no chão é melhor que dormir na cama. E que o céu estrelado é um bom cobertor. 

Não faço a mínima questão de ser visto. Muito menos de estar com a razão. Só sei que não sei quase nada. E o pouco que sei fica em segredo. Enquanto os certos de tudo lutam pela verdade absoluta, descobri que é preciso quase nada para estar em paz. Aqui no canto é frio. Mas sempre fui um preto calorento. Aqui no canto, descobri que o mundo inteiro é só um canto, então, qualquer canto é minha casa. Aqui no canto pouca coisa perturba o silêncio. 

Formas de vida com a composição baseada em carbono, cada respiração traz um pouco de morte para dentro. Mas é com gosto que eu inspiro, respiro e me inspiro. Ao mesmo tempo que o relógio é meu melhor amigo também assume o papel de meu pior inimigo. Se existe alguma entidade superior que possa ser denominada deus, talvez estas entidades sejam a natureza e o tempo. 

Regido pela lua, sigo entre idas, vindas, erros, acertos e poucas horas de sono, nunca me senti tão grande sabendo que sou tão pequenininho. O mundo é injusto e cruel. Mas a vida é maravilhosa. Um brinde ao nada. Pois do nada, tudo se cria. 

domingo, 5 de março de 2017

Fotografia

Fragmento de tempo congelado para sempre, imóvel, meio que tetraplégico. Nada ali vai a lugar algum, é imutável. Porém, finito. Registro fiel de tudo que poderia ser. De tudo que já foi. Contrastes de tudo que parecia ser. O futuro a gente constrói agora. O passado também. Um sorriso verdadeiro ou um sorriso forçado, uma pose ou um clique surpresa, memórias aprisionadas em imagens para satisfazer a nostalgia. Fotografias talvez sejam o que reside entre as idas e vindas. Preenchendo ou aumentando lacunas. Deixando registrados todos os erros e acertos do homem e sua megalomania, os castelos e as ruínas construídos a partir de sentimentos e ideais. Fotografias podem encher os olhos. Esvaziar, também. No fim das contas são só imagens. No fim das contas, as melhores fotografias ainda são (e sempre serão) as que se tira com os próprios olhos.





Vi um outro eu preso em uma fotografia
Imóvel e sorrindo, como se fosse magia
Matiz do tudo e o nada que já fui um dia
Um gole de saudade,um trago de nostalgia
Início, meio e fim de uma triologia 

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Rastro de luz

Já não era mais uma menina. Mas também ainda não era uma mulher. Do sorriso fácil e quase que inocente, sempre cheia de força apesar de todos os obstáculos. Nossos caminhos se cruzaram de forma meteórica, assim, quase que imperceptível de tão rápido, mas você é uma das coisas que deixarão uma marca em mim enquanto eu existir. 
Hoje faz mais ou menos um mês que você morreu. Mas em momento algum te faltou vida, nem mesmo quando já não era mais possível sequer ficar de pé. E mesmo quando não tinha mais cabelo você nunca deixou de se sentir linda com suas perucas e lenços coloridos. Sempre vaidosa, sempre de batom. Nunca vi de perto alguém tão feliz pelo simples fato de estar vivo como você era. Alguém dar tanto valor a vida e às coisas pequenas, as que realmente importam. Alguém que tinha certeza absoluta que cada dia a mais é um dia a menos e vivia já com um prazo estipulado, mas vivia tão intensamente de forma tão singela. A Amélie Poulain da vida real...
A fila do transplante não ajudava, mas vendo você, mais que nunca, aprendi que  paciência é uma virtude, que não adianta se consumir com aquilo que vai além do nosso alcance quando bem na nossa frente já tem tanta coisa boa e só não enxerga quem não quer. Que é uma escolha ser feliz ou ser triste independente de fatores, pessoas ou condições. Você me fez enxergar que a vida por si só é a maior dádiva que alguém pode ter, e que cada dia vivo é um motivo para ser grato. 
As pessoas esperam o ano virar para colocarem seus planos em prática e ficam esperando que as coisas aconteçam magicamente. As pessoas desistem ao primeiro sinal de dificuldade. As pessoas reclamam da vida quando estão cheias de vida. Nunca estão satisfeitas para enxergar o quanto tem. As pessoas sempre deixam para amanhã aquilo que podem fazer hoje...quando talvez o amanhã possa nem chegar. A vida é curta demais pra adiar seus sonhos. Nosso tempo é curto demais pra perder com lamentações. 
Dizem que a maior dor que uma mãe pode ter é enterrar um filho. E pensar que sua família nunca mais vai conseguir comemorar um natal chega a doer até em mim. Mas sei também que por onde você passou deixou lembranças de amor, assim como por aqui. Como uma estrela cadente; linda, breve, deixando um rastro de luz em seu caminho. Se realmente temos uma missão neste plano, vai ver a sua era espalhar essa mensagem silenciosa de força e perseverança, de amor à vida. Tenho certeza de que agora você vive em algum lugar bem melhor que esse. 
Tua passagem no meu caminho foi uma grande lição de amor e de força, mudou minha vida pra sempre. Você não será esquecida. Se pegar algum sinal de internet aí no céu, espero que essa cartinha chegue até você e te faça um sorrisinho. Daqueles largões de batom carmim. Trezentos beijos. E muita paz. 

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017